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“No trabalho do delegado de polícia, nenhum dia é igual ao outro”

20 de Outubro de 2017 Autor: Caroline Pereira

“No trabalho do delegado de polícia, nenhum dia é igual ao outro”

Por mais que a violência contra a criança, o idoso e a mulher seja uma ferida antiga, o problema tem sido enfrentado de forma cada vez menos tímida pela sociedade. Além de campanhas que buscam combater esse tipo de criminalidade – como o Movimento de Combate à Violência Contra a Mulher, do Governo do Estado –, os capixabas contam ainda com o apoio de autoridades engajadas com tal missão.

Em Linhares, a luta contra a violência aos grupos acima citados inclui os trabalhos da delegada Suzana Duarte Garcia. Em entrevista ao jornal Correio do Estado, ela, que nasceu e cresceu em Belo Horizonte (MG), fala sobre as atribuições de seu cargo, a postura que a função exige, os possíveis preconceitos enfrentados – pelo fato de ser uma autoridade feminina –, entre outros temas.  

A pedido do jornal CE, a delegada também dá um conselho para as mulheres que são vítimas de algum tipo de violência. Confira: 

Jornal CE: Quais são as atribuições do seu trabalho, como delegada?

Suzana: A principal atribuição do cargo de delegado de polícia é apurar os fatos que configuram ilícitos penais, identificando os autores da conduta delituosa e auferindo prova da materialidade delitiva, realizando diligências investigativas e requisitando todas as informações e documentos necessários à elucidação dos fatos. O delegado de polícia também é o gestor da delegacia, procedendo ao gerenciamento da equipe de policiais e determinando as diretrizes de sua atuação. 

Jornal CE: Em relação à Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, ao Idoso e também à Mulher, que está sob sua responsabilidade em Linhares, como o seu trabalho é direcionado?

Suzana: Presido inquéritos policiais para apurar fatos, via de regra, praticados com extrema crueldade, pois as vítimas são pessoas em situação de vulnerabilidade, como crianças e idosos, bem como mulheres que estão sendo vítimas de agressão dentro de seus lares e não têm oportunidade de colocar um fim a esse ciclo de violência. Neste cenário, o delegado de polícia é o primeiro garantidor dos direitos, pois é com ele que a vítima mantém, via de regra, o primeiro contato. 

Jornal CE: Que postura essa função demanda de você?

Suzana: O fato de ser o garantidor dos direitos da vítima e ser o seu primeiro contato exige da autoridade policial uma postura de altruísmo para ouvir e amparar essas vítimas, que esperam encontrar, primeiramente na polícia, o mínimo de amparo e justiça para a responsabilização de seus algozes. Busco atuar com agilidade e energia nestes casos, priorizando os inquéritos que apuram crimes contra a dignidade sexual, viabilizando a responsabilização criminal dos autores, notadamente representando ao poder judiciário pela prisão preventiva ou por outras medidas cautelares diversas e cumprindo, com efetividade, os mandados de prisão para retirar de circulação e/ou do âmbito de convivência da vítima o agressor. Esses tipos de crimes demandam uma resposta imediata do Estado, razão pela qual se faz necessário um melhor aparelhamento da polícia civil como um todo, especialmente às delegacias de proteção, de modo a viabilizar, ainda mais, a eficiência na investigação destes crimes. 

Jornal CE: Esse é o seu primeiro trabalho ou você já atuou em outras áreas do direito?

Suzana: Advoguei por quatro anos antes de assumir o cargo de delegada de polícia. Após me formar na universidade, conciliei a rotina da advocacia com os estudos para o concurso. 

Jornal CE: Por que você escolheu essa carreira? Sempre desejou se tornar delegada, mesmo diante das demais opções de carreira na área do Direito?

Suzana: Desde a faculdade almejava a carreia de delegada de polícia.  Isso porque, no universo das carreiras jurídicas, ela é a única que viabiliza tanto uma atuação jurídica quanto operacional, vale dizer, uma atuação também externa no combate de trincheira à criminalidade. O grande diferencial da carreira é justamente compor lugar para todos os perfis. Há colegas que, por escolha profissional e por uma questão de perfil profissional, não elegem a atuação operacional de front em sua atuação, reservando-se mais para a atuação jurídica, enquanto há outros que priorizam ambas as atividades. E esse é o grande diferencial que a carreira de delegado proporciona: deixar de lado um pouco a frieza do contato primordial com papeis dos autos e atuar direta e pessoalmente com os eventos e com a realidade. No trabalho do delegado de polícia, nenhum dia é igual ao outro. 

Jornal CE: Seu trabalho é mais desafiador pelo fato de você ser mulher?

Suzana: Infelizmente, ainda há alguns resquícios machistas decorrentes da figura, já ultrapassada, do delegado de polícia. Porém, com a renovação dos quadros da carreira, não só no Estado do Espírito Santo, mas em todo o Brasil, a imagem do delegado tem se reconstituído e vem sendo reformada por jovens, homens e mulheres, que atuam com propriedade na condução dos trabalhos de polícia investigativa.  Atualmente, embora ainda exista alguma dicotomia (diferenciação), ela não se sustenta para além de um primeiro contato, pois busco desempenhar minhas atribuições com afinco, de forma a responder à altura das atribuições do cargo, independente de sexo e gênero. 

Jornal CE: No dia a dia, você lida com questões bastante críticas, entre elas, a violência contra a mulher, que tem sido muito discutida nos últimos tempos. Crimes como esses poderiam ser evitados, em sua opinião?

Suzana: São crimes que poderiam ser evitados com mudanças culturais. Estigmas que pregam a coisificação da figura feminina e atribuem à mulher um papel de fragilidade, que precisam ser superados. Em minha opinião, as estigmatizações da mulher como símbolo sexual e objeto de desejo legitimam, de forma velada, muitas formas de violência. 

Jornal CE: E que conselhos você daria para essas vítimas?

Suzana: Tenham capacidade de autodeterminação para colocar fim aos relacionamentos que causem qualquer tipo de violência e não deixem de procurar apoio junto à polícia judiciária, que é a primeira trincheira de tutela dos direitos do cidadão. 

Jornal CE: Quais são os seus planos para o futuro, seja como delegada, seja em outra atividade?

Suzana: Meu planejamento é contribuir para a evolução da carreira e para o fortalecimento da polícia judiciária como um todo que, atualmente, sofre com mazelas institucionais voltadas ao enfraquecimento da polícia investigativa. A pergunta que fica é: a quem interessa uma polícia judiciária frágil?  À sociedade que não é! Portanto, o grande desafio é a busca pelo fortalecimento, não só da carreira, mas da polícia civil como um todo. A polícia civil precisa constituir-se como uma polícia de Estado e não de governo.

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Mineira, a delegada Suzana Duarte Garcia atua em Linhares no combate à violência contra a mulher, o idoso e a criança (Foto: Arquivo Pessoal)



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